Por José Adriano
O que a gente está vivendo com Inteligência Artificial não é mais uma onda tecnológica. É uma mudança de época. Daquelas que, quando você percebe, já virou “infraestrutura” e começa a redefinir como as empresas produzem, decidem e competem. Foi exatamente por isso que eu gravei o EP 24 do José Adriano Talks com o Roberto Dias Duarte: para falar de IA sem atalhos, com pé no chão, sem marketing, e com foco no que realmente muda o jogo nas áreas financeira, contábil e de backoffice.
O Roberto tem uma trajetória que casa muito com essa conversa. Ele foi um dos primeiros a explicar SPED quando o projeto ainda era piloto e, naquela época, ouviu uma frase clássica: esquece isso, nunca teremos contabilidade digital no Brasil. A história mostrou o contrário. E a provocação aqui é direta: quantas pessoas estão repetindo o mesmo erro agora, subestimando a IA por achar que é só mais uma ferramenta?
O ponto central do episódio é simples de entender e difícil de engolir: IA generativa é tecnologia de propósito geral, como eletricidade e internet. Ela não “melhora um processo”. Ela reorganiza cadeias inteiras. E, como aconteceu antes, a riqueza não surge apenas em quem produz a tecnologia, mas principalmente em quem aprende a aplicá-la no dia a dia, criando serviços, eficiência e modelos de negócio em cima disso.
Daí vem uma distinção que ajuda muito a tirar a conversa do modo “modinha”: IA não é chatbot. ChatGPT, Gemini, Claude são interfaces. A transformação está na cadeia por trás e, principalmente, no meio dela. Quem está na ponta, como usuário final, pode “ligar na tomada” e usar. Mas quem está no backoffice, no BPO, na consultoria e na contabilidade precisa entender outro nível: não é só perguntar e receber resposta. É desenhar trabalho para agentes executarem com consistência.
E aqui entra a virada de papel mais relevante: você deixa de ser apenas executor de tarefa e passa a ser criador de agentes. O Roberto usa uma imagem forte: é como “clonar seu cérebro” em fluxos de agentes autônomos. Na prática, isso significa transformar rotinas repetitivas (conciliação, apuração, validação, relatórios) em esteiras automatizadas, e deslocar o humano para o que realmente importa: análise, contexto, recomendação e decisão.
Só que não tem mágica. E talvez o trecho mais valioso do episódio seja justamente a crítica aos atalhos. Copiar prompt de internet pode servir para fazer figurinha, imagem, meme e lazer. Para uso profissional, o buraco é mais embaixo. O caminho “sem atalhos” passa por três pilares: prompt com técnica, base de conhecimento curada (normas, políticas, leis, manuais organizados para consulta) e base de dados estruturada (porque planilha Frankenstein e PDF mal montado continuam gerando o mesmo resultado de sempre: lixo entra, lixo sai).
Quando isso se junta, nasce o que a gente chamou no papo de fluxo agêntico: um agente extrai dados, outro calcula indicadores, outro analisa, outro contextualiza com histórico e mercado, outro aplica frameworks e, no final, alguém redige um relatório ou dispara recomendações. Repare no detalhe: o valor não é o relatório bonito. O valor é a recomendação prática e recorrente, entregue do jeito certo, na hora certa, com governança e melhoria contínua.
Eu gosto muito do exemplo do restaurante que apareceu na conversa, porque ele escancara um pecado antigo do nosso setor: a informação está ali, mas a gente entrega só obrigação. Notas fiscais carregam padrão de consumo, mix de produtos, horários de maior venda, impacto de promoções, margem escondida em desconto mal controlado. Quase ninguém transforma isso em aconselhamento simples, semanal, acionável. Com agentes, isso vira possível, escalável e, principalmente, rentável para quem presta serviço e valioso para quem decide.
Fechando: a maior mentira da IA talvez seja a promessa de que você vai trabalhar menos. Você tende a trabalhar mais, só que em outro patamar. Menos enxugar gelo, mais construir. Menos “apagar incêndio”, mais prever queimadas. Se você quer ouvir essa conversa completa e levar para seu time uma visão executiva, pragmática e aplicável, procure pelo episódio IA sem atalhos: possibilidades, limites e o futuro do trabalho | EP 24 no José Adriano Talks. E aproveite para explorar os outros episódios: a proposta do podcast é exatamente essa, provocar e apoiar profissionais e líderes nesse novo ciclo de transformação que envolve tecnologia, dados, compliance e estratégia.
O podcast José Adriano Talks é apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup.
Ouça e participe:
O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/
