Sobrevivendo à Reforma Tributária | EP 32 José Adriano Talks com Adriano Subirá

por | 07/04/2026 | From José Adriano | 0 Comentários

Por José Adriano

A reforma tributária não é, no fundo, uma discussão apenas jurídica. Ela é muito mais uma reforma econômica, com efeitos diretos em preço, margem, fluxo de caixa, logística, investimento e competitividade. E esse é um ponto que muita gente ainda não entendeu por completo. No novo episódio do José Adriano Talks, conversei com Adriano Subirá sobre o que realmente está em jogo nessa transição: não só a troca de regras tributárias, mas uma mudança profunda na forma como empresas e governos vão operar.

O currículo do Subirá ajuda a explicar o peso dessa conversa. Ex-auditor da Receita Federal, ex-assessor na Câmara dos Deputados, integrante do grupo técnico que ajudou a construir a reforma e participante direto do PAT-RTC, ele traz uma visão rara de quem conhece a jornada inteira: da Constituição ao XML, da legislação ao sistema, da política pública à operacionalização. E isso faz diferença, porque uma reforma desse tamanho não se sustenta só em boas intenções. Ela precisa parar em pé na prática.

Uma das reflexões mais valiosas do episódio foi justamente essa: a reforma foi pensada com preocupação operacional desde o início. Parece detalhe, mas não é. Durante muito tempo, no Brasil, houve norma pensada sem ouvir direito quem teria de transformar aquilo em processo, sistema, parametrização e rotina empresarial. Agora, pelo menos no desenho estrutural, houve um esforço concreto de aproximar legislação e execução. Traduzindo para o mundo real: reduzir a chance de criar uma regra bonita no papel e caótica no ERP.

Isso não significa, claro, que tudo ficou simples como passe de mágica. Seria ingenuidade vender essa ideia. A reforma tende a deixar o sistema melhor e mais racional do que o modelo atual, mas continua carregando exceções, regimes diferenciados e pressões setoriais que puxam a complexidade para cima. É o mundo como ele é. Ainda assim, quando se compara a organização da nova legislação com o manicômio tributário espalhado hoje entre normas federais, estaduais e municipais, a diferença de estrutura já salta aos olhos.

O problema é que muitas empresas continuam olhando para a reforma como se ela fosse um assunto exclusivo do fiscal, do tributário ou, quando muito, do jurídico. Não é. Quem pensa assim está enxergando só o retrovisor. A reforma bate em compras, comercial, precificação, supply chain, tecnologia, tesouraria, planejamento e relacionamento com fornecedores e clientes. E aqui mora um risco clássico: deixar para envolver as demais áreas tarde demais. Depois que a água entra no porão, reunião de alinhamento vira item de luxo.

Na prática, a grande pergunta deixou de ser “o que mudou na lei?” e passou a ser “como meu negócio vai ganhar ou perder dinheiro com isso?”. Porque é disso que estamos falando. Empresas terão de rever estruturas logísticas, avaliar contratos, recalcular margens, entender impactos por produto, cliente, canal e região, além de reexaminar decisões antigas tomadas em cima de incentivos fiscais que estão perdendo relevância. Nem toda operação vai mudar de endereço. Nem toda estratégia vai deixar de fazer sentido. Mas quase toda empresa relevante vai precisar revisitar as próprias premissas.

E aí entra um dos temas mais sensíveis da conversa: o fluxo de caixa. O split payment, tão debatido e tão mal compreendido em muitos fóruns, tem potencial de trazer ganhos importantes, especialmente pela lógica do crédito financeiro e pela tendência de reduzir fraudes estruturadas, o que ajuda inclusive a conter a alíquota de referência. Mas ele também muda a dinâmica do caixa, do prazo e da liquidez. Em bom português: não basta saber que o crédito existe. É preciso entender quando ele entra, quando o débito sai e quem vai financiar esse descasamento no meio do caminho.

Outro ponto forte do episódio foi a provocação sobre o papel dos municípios e das administrações tributárias nesse novo ambiente. O jogo da arrecadação muda, os incentivos mudam, e isso exige uma nova postura de quem governa e de quem empreende. Municípios terão de se reinventar. Empresas terão de se antecipar. E os times internos terão de aprender a conversar entre si de um jeito muito mais integrado. A reforma não premia quem decora regra. Ela premia quem consegue transformar regra em decisão melhor, processo melhor e execução melhor.

No fim das contas, a grande lição é simples de dizer e trabalhosa de executar: sobreviver à reforma tributária não será uma questão de opinião, torcida ou narrativa. Será uma questão de governança, planejamento, teste, integração de áreas e velocidade de adaptação. Quem tratar esse tema como projeto estratégico tende a sofrer menos e capturar mais oportunidades. Quem continuar tratando como pauta lateral pode descobrir, tarde demais, que o problema nunca foi só imposto. Era modelo de negócio. Esse episódio do José Adriano Talks ajuda justamente nisso: sair do discurso raso e entrar na conversa que interessa. E vale explorar também os demais episódios do podcast, porque a proposta é essa mesma: provocar reflexão executiva com base prática, pé no chão e visão de futuro.

O José Adriano Talks é apoiado por BlueTaxMitySafeGrupo LPJ e KTGroup.

Ouça e participe:

O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/


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